1 de junho de 2017

Capítulo 35: Um Ponto de Onde Não Há Retorno

01 junho Escrito por Eliude Santos , 2 comentários
“Onde vais?” Perguntou Lúcifer, tentando acompanhar os passos de Caim.

“Como ousas cruzar meu caminho depois do que me induziste a fazer?” Caim empurrou Lúcifer com o cotovelo. “Quão tolo eu fui em dar ouvidos às tuas palavras.”

Lúcifer caiu por terra, e Caim, em sua fúria, pôs-se a chutá-lo e amaldiçoá-lo com as palavras mais grosseiras que conhecia.

“Por que estás chutando estas pedras e fazendo o pó subir sobre nós?” Disse Lúcifer que agora estava de pé atrás de Caim, tocando-lhe o ombro numa curiosidade sínica.

Caim virou-se assustado e, vendo o tentador diante dele, caiu por terra.

“O que queres de mim? Por que me fizeste cometer tão grande mal àquele a quem tanto amava?”

“O que fizeste foi por escolha tua. Nada fiz senão apresentar-te escolhas, tal qual teu pai havia feito antes de mim. Não foi isso que te disse o Criador? Não deves culpar-me se o banquete de minhas palavras pareceu-te mais saboroso que aquele que o velho patriarca te servira.”

“Antes tivesse eu atentado para as palavras de meu pai.” Disse Caim amargurado.

“Mas não atentaste. E agora ele não perdoará tua ofensa. Se te apresentares em tua casa assim manchado de sangue, todos se levantarão contra ti para ferir-te em vingança ao teu ato vil.”

“O Altíssimo intercederá por mim.” Disse Caim.

Lúcifer riu.

“Do que ris?” Perguntou Caim enfurecido.

“És apenas um joguete nas mãos desse Navegante cruel. Não percebes que Lhe apraz que te tirem a vida? Desta forma, a morte do mancebo preferido é vingada e, com tua queda, ainda extermina o único oponente que de fato haveria de colocar em risco a concretização de Seu plano nefasto.”

“Tuas palavras são torpes. E vil é o intuito de teu coração.”

“Tudo que quero é justiça. Se preferes arriscar tua vida indo apresentar-te aos teus pais conforme te instruiu o Altíssimo, não interferirei.” Disse Lúcifer estendendo-lhe a mão para ajudá-lo a levantar-se.

“Minha vida? Já não há mais nada em minha vida que me faça odiar a morte; ou evitá-la. Eu cometi um crime imperdoável. Entenderia se meus pais se levantassem contra mim para vingar a morte de meu irmão.”

“Não há dom maior que este dom que ora desprezas.”

“E mesmo sabendo disto, induziste-me a roubar tão precioso dom daquele que era mais merecedor dele do que eu jamais serei. Roubei-lhe a vida e o que lucrei com o que fiz? Perdi o gosto pela minha própria.”

“Esse Altíssimo tem mesmo o dom da palavra. Alguns minutos de tua atenção e distorceu toda a verdade, enfiando-te neste poço de miséria a fim de fazer-te presa fácil para quaisquer das armadilhas que reservou para ti.”

“Eu matei meu irmão.” Gritou Caim em desespero.

“E agora Nod já não terá que se deitar com ele. Não era isto que querias?” Completou Lúcifer. “Ademais, se te apressares, ainda hoje, ela estará em teus braços e tuas serão as bodas, o fruto de tua diligência. 

E isto será somente o começo dos teus lucros. 

O que fizeste foi para salvar a tua honra, e nisto estás plenamente justificado.”

“Não me importa a justiça se ela não consegue aplacar este sentimento que me corrói por dentro e rouba minha paz.”

“Mísero torrão de barro! Chego a me apiedar de ti. É isto que desejas que os outros sintam a teu respeito? És um príncipe, e príncipes não devem suscitar pena; devem insuflar temor. Levanta a cabeça, pois isso que fizeste perturbará a muitos e fará com que eles todos tremam em tua presença.”

“De nada me importa o que os outros sentem por mim. Importa-me mais esta angústia que cresce cada vez mais em meu peito, fermentando o fel da amargura que sela minhas entranhas.”

“Uma amargura que foi plantada em teu peito por ti mesmo, porque não foste corajoso o suficiente para enxergares os degraus que subiste nesta hierarquia. Ou achas que tua vida se resumirá a este pedaço de terra árida, comendo pó e derramando teu suor como um condenado?

Se fosse eu o teu Criador, jamais permitiria que visses a ti mesmo com estes olhos de comiseração. Tu és um herói.”

“Não há nada de heroico no que fiz.”

“Então vai e diz ao teu pai o que fizeste. Um herói que não sabe de que lado está lutando pode ser mais danoso que um vilão que o sabe. Farás com que teu Opositor fique mais forte e esta batalha estará fadada ao fracasso.”

“Tu és o meu opositor. Não há outro.”

“Não. Como podes ser tão cego? Sou teu amigo. Quero ver-te triunfar, pois teu triunfo é o meu triunfo.”

“Se esta luta é tão importante para ti, luta-a sozinho.”

“Não se vence luta alguma sozinho. Eu preciso de ti; e tu, de mim. E juntos diremos ao Todo-Poderoso que não aceitaremos este mal que Ele fez.

Não percebes que nasceste diferente de teu irmão Abel? Não percebes que Hapi era diferente de vós? E tais diferenças fizeram-vos agir de modos tão distintos, ainda que vivendo exatamente as mesmas circunstâncias.

Abu apareceu-vos falando sobre monstros no bosque, e tu te escondeste destas bestas assustadoras no cultivo da terra para que não precisasses deixar o conforto e segurança do Vale onde cresceste. Já Abel encheu o peito de coragem e subiu às montanhas levando os cordeiros pelos caminhos onde tais monstros supostamente estariam, pois em seu coração queria enfrentá-los para, deste modo, tornar-se um semideus para os de sua casa, assim como era seu irmão para ele. Não esperava que este monstro surgisse num rosto tão familiar e falhou em defender-se daquilo para o que se preparou toda a sua vida. Nem tampouco tu esperavas tornar-te aquilo do que fugias.

Tu foste prometido a Nod; e Hapi, a Ima. Tu esperaste as bodas para deitar-te com tua prometida. Já Hapi deitou-se com todas as tuas irmãs em idade para o coito. E nada teria acontecido a ele se seus atos ocultos não tivessem vindo à tona. Era reverenciado por todos até que, descobertos seus segredos, tornou-se odiado e rejeitado pelos mesmos que antes falavam de amor.

Mas quem vos fez assim tão imperfeitos?”

“Cada um é o que é.” Respondeu Caim.

“E todos são o que são, meu amigo, porque assim foram feitos por Aquele que os criou.” Disse Lúcifer. “No entanto, esse perverso Criador tortura os que não são tão corajosos como Ele gostaria que fossem, nem tão pacientes como Ele ordena que se tornem.

Não lucraria mais já fazendo a todos perfeitos? 

No entanto, como um oleiro inexperiente, erra na criação de novos vasos. E por não saber consertá-los, esmaga-os sob Seus pés e alegra-se com o barulho dos cacos trincando.

Este é o Altíssimo a quem teus pais oferecem sacrifícios. Este é o Altíssimo que criou este mundo para colocar vários de Seus vasos malfeitos para serem humilhados por uns poucos vasos perfeitos que por fim Ele usará para decorar Suas mansões infinitas e eternas, deixando os demais todos juntos, quebrando-se uns aos outros por não aceitarem as imperfeições uns dos outros ou as imperfeições em si mesmos, até que, caco contra caco, só reste o pó desses vasos, de modo que nem mesmo o Altíssimo se lembrará dos erros que cometeu na Sua criação, fazendo pela eternidade outros vasos com as mesmas imperfeições para sofrerem das mesmas aflições. Assim, o universo é feito de vasos quebrados.”

“Estás certo.” Admitiu Caim. “Eu não estaria sofrendo assim se Ele não tivesse me feito um homem tão fraco e capaz de nutrir tão torpes pensamentos.”

“Enxuga estas lágrimas e refreia teus passos.” Disse Lúcifer. “Não é sábio que contes ao teu pai o que fizeste. Antes, vai até Nod e diz-lhe que não é seguro ficarem no Vale. Ela seguirá contigo aonde quiseres ir. 

Faze-o, no entanto, de madrugada, para que teus irmãos não te vejam.”

“Estás certo. Será melhor assim.”

“Agora, ajuramenta-te comigo de que não revelarás este segredo nem mesmo para tua esposa para que não sejas ferido na garganta como foi o teu irmão Abel.”

E Caim fez o sinal do juramento, conforme instruído por Lúcifer, passando o dedo de um lado a outro do pescoço.

“Farás, então, conforme o que eu te disser?”

“Sim. Obedecerei teus mandamentos e serei o guardião deste grande segredo.”

“Teu nome então será Mahan Usir, pois a partir deste dia tudo o que fizeres será para enfraquecer o reino Daquele que te fez fraco, a fim de que te tornes mais forte que Ele.”

“Como pode o vaso tornar-se mais poderoso que o Oleiro que o criou?”

“Revelo-te agora a chave de teus domínios. Atenta para o que te digo, pois nisto repousará o teu triunfo. Levantarei para ti uma grande nação, de modo que os filhos de Adão viajarão grandes distâncias para provarem dos teus manjares e para conhecerem as majestosas construções que erguerás em nome do Altíssimo. E tu cobrarás altos tributos a todos que entrarem em teus domínios, exceto àqueles que se ajuramentarem contigo para participarem deste grande segredo. 

Farás para ti um trono e nele te sentarás para deliberares sobre os atos daqueles que te servem. Com pulso firme, serás um bom regente aos olhos de teu povo. Mas cabe àquele que porta o cetro da justiça não ser bom todo o tempo, pois a justiça só existe na oposição, de modo que só há paz se houver guerra; só há lucro se houver extorsão; só há conquista se houver opressão. 

Diante dos homens, sempre honrarás com tua palavra, que é teu bem mais precioso. Se ensinares aos teus súditos os princípios de lealdade e fores um exemplo público de tuas palavras, todos confiarão em ti. Com astúcia, te aproveitarás desta confiança em teu próprio benefício, nem que isto exija sacrifícios e vilipêndios feitos à calada da noite, longe dos olhos daqueles que te apoiam.

Não questionarás se estás certo ou errado, pois saberás, pelos frutos de tuas obras, que estás certo, pois grande será o teu êxito.”

“E como erguerei este grande império se sequer tenho onde recostar minha cabeça?”

“Quem é o pastor dos rebanhos de tua casa?”

“Abel era o pastor dos rebanhos da casa de meu pai.”

“E onde está teu irmão Abel agora?”

Caim entendeu o que Lúcifer sugerira sem que o tentador entrasse em mais detalhes. 

“Como haverei de apossar-me dos rebanhos da casa de meu pai sem que ninguém me veja?”

“Teus pais e teus irmãos irão até a Caverna dos Tesouros para sepultar ali o corpo de teu irmão Abel. Quando eles se distanciarem do Vale, vai ao redil e arrebanha todos os cordeiros e novilhos, todos os porcos e aves, e traze-os até a outra margem do rio e eu vos ajudarei a cruzar as águas em segurança.

Uma vez que tenhas cruzado as águas do Pison, seguirás o caminho do sol nascente até que encontres uma outra caverna, onde habitarás por um tempo. E quando a ira de teus irmãos houver esfriado, seguirás em segurança com os teus para a terra de Nod, a terra em que teus filhos crescerão em segurança e onde tu iniciarás as obras secretas que farão de ti o mais poderoso dos homens.”

“Assim seja.”

Caim seguiu até o Vale e, conforme instruído pelo tentador, naquela noite, encontrou-se em segredo com Nod e disse-lhe que preparasse mantimentos e não seguisse com os demais à Caverna dos Tesouros, pois, levantando-se a névoa da madrugada, eles haveriam de deixar o Vale de Adão para não mais voltarem, pois aquelas terras já não eram mais seguras.

Caim falou de monstros meio-homens-meio-touros com chifres imensos que haviam rasgado de um só golpe a garganta de seu irmão. Disse que tentara protegê-lo, mas seu cutelo não se mostrara suficientemente forte para causar-lhes dano algum, de modo que ele fugiu para salvar a própria vida.

Disse ainda que os monstros estavam vindo a caminho do arraial e que logo chegariam ali.

“Apressemo-nos, pois, e avisemos a nosso pai Adão”, disse Nod, “para que ajunte também ele provisões e conduza a nossos irmãos em segurança para longe deste vale maldito.”

“Não há tempo para isto. Nossos irmãos mais moços atrasariam nossa fuga.”

“E deixarás que eles sejam feridos ou devorados por estas bestas feras?”

“Preciso que confies em mim, Nod. O Altíssimo apareceu-me no bosque e disse-me que Sua mão pesa em violentas punições sobre esta casa amaldiçoada pelas injustiças e transgressões que nosso pai cometeu contra a sagrada vontade Daquele que tudo conhece. Tu e eu sofremos o aguilhão destas injustiças e bem sabemos que o Altíssimo tem seus motivos para lançar seus julgamentos contra esta casa.”

“Sim, meu irmão. Estás certo. Mas deixa-me ao menos avisar às minhas irmãs que se detenham por mais tempo na Caverna dos Tesouros a fim de que lá possam encontrar algum refúgio contra tão severos julgamentos.”

“Faz como bem te aprouver. Só não lhes diz que estive contigo, pois conhecendo bem ao meu pai, sei que ele julga ter sido eu que tirei a vida de meu irmão. Ciente de que estou por perto, haverá de querer que eu me apresente perante ele para ser julgado e, fazendo-o, estaremos todos perdidos.”

“Estás certo.”

Nod fez conforme Caim lhe instruiu. 

Quando todos seguiram em direção à Caverna do Tesouro para sepultar o corpo de Abel, ela desviou-se do cortejo e voltou ao arraial. Caim já ajuntava todos os rebanhos e, juntos, seguiram na direção das margens do Pison.

Uma forte tempestade fez cair algumas árvores sobre o leito mais estreito do rio, criando uma ponte, por onde todos passaram.

Algumas aves, cordeiros e novilhos se dispersaram, mas finda a travessia, todos os remanescentes seguiram na direção daquela caverna que Lúcifer preparara para que lhes servisse de abrigo.

28 de maio de 2017

Capítulo 34: Bodas de Pranto

28 maio Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
“Levantai, minhas filhas, e preparai caminho para as bodas. Não temas, Nod, minha querida, porquanto estas lágrimas que ora vestem tua face como um véu de tristeza logo haverão de limpar os argueiros que te impedem de ver com clareza a grandiosidade dos passos que estás prestes a dar.

Levantai, minhas filhas, e cobri de flores o caminho de vossa irmã e preparai para os noivos um leito de lã e alfazema. Colocai romãs e uvas à cabeceira, e incensos e mirra à soleira de sua cama.

Poli com areia fina do deserto duas grandes placas de bronze bem firmes até que reflitam nelas vossa beleza e colocai-as uma à direita e outra à esquerda do leito nupcial, erguidas uma de frente para a outra, para que recebendo a unção patriarcal, possam os noivos ver refletidos a si mesmos em imagens que se repetem rumo ao infinito daqueles espelhos, pois nisto reside o propósito de sua união: incontáveis hostes de filhos etéreos do Altíssimo que esperam, além do Véu, que, através das sementes deste enlace, possam ganhar um corpo glorioso como o nosso e sentir os prazeres e dores que este mundo nos reserva.”

Eva apressava suas filhas nas preparações para as bodas.

“Levantai, minhas filhas, e banhai e ungi vossa irmã com unguento cheiroso. Colocai adornos sobre sua cabeça; e, sobre seus ombros, peles alvas e macias. Trazei-a nos braços para ser entregue ao seu esposo na presença daquele que há de selá-los numa aliança eterna que nem os laços da morte haverão de quebrar.”

Tendo dito estas palavras, foi interrompida por um mancebo que entrou sem fôlego em seus aposentos e disse-lhe algo aos ouvidos.

Eva tremeu diante das palavras do menino e saiu correndo ao encontro de Adão.

Adão estava à porta do assentamento com o filho ensanguentado nos braços. Eva lançou-se aos seus pés aos prantos, e todas as suas filhas foram ao chão consigo. Ela colocou-o no colo e acariciou sua pele dilacerada.

“Meu filho, meu filho, que besta do campo teria garras tão afiadas para, de golpe tão certeiro, roubar-te os sonhos e aspirações neste ímpeto de crueldade sem par?”

Adão estendeu a mão e mostrou-lhe o cutelo de Caim, ainda ensanguentado.

“O que é isto?” Indagou Eva, ainda sem entender.

“Viste Caim?” Adão não queria acusar o filho, mesmo sabendo que todas as evidências apontavam para o lavrador.

“O que estás dizendo?” Perguntou Eva, já entendendo o que o marido supunha ter acontecido. “Caim jamais faria tamanho mal ao seu irmão.” E abraçou o corpo frio e enrijecido de Abel.

“Talvez ele tenha usado o cutelo para proteger seu irmão contra alguma besta selvagem que lhe atacou e, fracassando, fugiu para não ser morto de igual modo.” Disse Adão, procurando tranquilizar sua esposa. “Precisamos encontrá-lo, pois se não foi o autor desta tragédia, certamente foi dela testemunha.”

“Ai, meu Deus, que sabor amargo é este? Que dor lancinante é esta que rasga-me o peito e faz-me querer que os céus e a terra se rasguem juntos?”

Diante do choro de Eva, Adão desabou de sua postura régia e caiu por terra, rasgando suas vestes e espojando-se na terra fria e molhada das chuvas da noite passada.

“Senhor, meu Deus, arranca-me os olhos para que não veja esta desgraça que se abate sobre minha casa, ou devolve-me logo ao barro para que minha semente não macule ainda mais este mundo que com tanto cuidado criaste para nós.”

Todos uniram-se ao redor do corpo de Abel e, juntos, choraram sua morte.

Do outro lado do rio, Caim corria por entre cardos e arbustos como se quisesse fugir de si mesmo.

A terra tremeu novamente e, tropeçando, ele caiu sobre o próprio rosto. O céu escuro se abriu e uma coluna de luz desceu diante dele.

Desta vez, o Homem de luz que lhe veio ao encontro não parecia tão sereno quanto Aquele que outrora aparecera junto ao altar. Seus olhos eram cor de sangue, suas vestes eram feitas em placas de um metal firme que reluzia como se fossem grandes escamas de ouro. De fato, toda a sua aparência era reluzente e assustadoramente ameaçadora.

Sobre sua cabeça, tinha um barrete com dois chifres que se abriam em doze pontas. E seu manto era feito de penas de aves brancas que, movendo-se atrás dele, deixavam um rastro de relâmpagos e trovões.

“Onde está Abel, teu irmão?” Disse o Homem de luz com voz estrondosa que penetrava até o âmago.

“Como poderia eu saber de seu paradeiro? Sou acaso o guardador de meu irmão?”

“Ousas mentir na presença de teu Criador?”

“Se sabes que minto, sabes então onde ele está e o que fiz com ele. Assim sendo, qual a razão da pergunta? Acaso queres me torturar ainda mais do que minha consciência já o faz?”

Ao que o Criador fincou sua espada na terra, que tremeu novamente fazendo rochas despencarem de lugares altos e vales abrirem-se em desfiladeiros.

“Maldita seja a terra que bebeu o sangue de teu irmão Abel, pois este será seu alimento até o fim dos tempos, nutrindo-se da podridão de vossos despojos para gerar novas vidas.

E tu, Caim, tremei e estremecei diante da Minha presença, pois Eu sou o Senhor Deus de teus pais e o sangue de teu irmão clama desde o pó por justiça.”

“Meu Senhor, corta-me ao meio com Tua espada e põe fim a esta minha existência miserável.”

“Se Eu atendesse o teu pedido, seria um assassino tão cruel quanto tu agora és. Antes, declaro sobre ti a Minha justiça e com esta espada, corto-te da linhagem de Adão até que tua semente ofereça por um período de quatro gerações seguidas sacrifícios justos ao Altíssimo, conforme aquelas oblações que foram reveladas a Adão, teu pai, ao deixar o paraíso; sim, ofertas justas à semelhança do sacrifício do Cordeiro de Deus que há de vir no Meridiano dos Tempos para redimir a todos da maldição que se abateu sobre esta Terra.”

“E o que sucederá a mim?”

“Tu fugirás da presença dos homens e terás pântanos e desertos, montes rochosos e cavernas escuras por abrigo. Porquanto, entre eles, não terás paz: serás perseguido e quem quer que te ache ou descubra o que fizeste se voltará contra ti e procurará tirar-te a vida. De modo que, na esperança vã de comprar tua segurança, tu te tornarás o pai das mentiras. E todo o domínio e poder que alcançares por estes meios farão de ti um alvo fácil para aqueles que têm sede de justiça. E como, por tua causa, a iniquidade amadurecerá, grande será sua crueldade para contigo. No entanto, atirando eles fogo contra ti, tua pele se regenerará; e esmagando-te os ossos, eles recobrarão sua forma; e cortando-te a garganta, a terra se recusará em beber teu sangue; de modo que morrerás muitas mortes sem que percas a consciência de quem tu és e do que fizeste a teu irmão. Sim, setenta vezes sete morrerás de pequenas mortes até que a grande morte te sobrevenha. E esta morte de que te falo não é uma morte no corpo.”

Os olhos de Caim foram abertos e ele se viu em uma gigantesca cidade com altos edifícios e adornos dos mais diversos e uma multidão de pessoas indo e vindo em seus afazeres, nenhuma delas fazendo caso de sua presença ali.

Viu então seu irmão Abel em um edifício de paredes retesadas e portas e janelas translúcidas. Um homem de avental branco costurava-lhe o pescoço e dizia que tudo ficaria bem.

Caim gritou por seu irmão.

“Ele não pode te ouvir, Caim. Abel irá descansar agora até que se cure da ferida que abriste em seu pescoço e possa então receber os encargos que haverá de executar naquela nova esfera de existência em que se encontra.”

“Se ele está de pé, então não morreu. Como podes chamar-me de assassino e punir-me com tão cruel maldição se meu irmão ainda vive?”

“Para mim, não há mortos nem vivos. Todos vivem. Morte é separação e Eu nunca me apartei de vós.  Mas para Abel, cuja essência pensante foi arrancada de seu corpo físico pela lâmina afiada de teu cutelo às vésperas de suas bodas, quando sua existência ganharia ainda maior propósito, tornando-se um pai de muitos, como Eu sou; e para teus pais, que ora lidam com a dor causada por esta abrupta separação, Abel está morto e seu corpo logo voltará ao cosmos físico donde os elementos para a sua constituição foram tirados.

Quando teus pais comeram do fruto proibido, foram corrompidos pela ferrugem que maculou a seiva que regava os tecidos de seus corpos perfeitos, de modo que esta seiva se tornou espessa e carmesim. A cada tragada de ar, esta seiva corrompida que chamais de sangue enche-se ainda mais deste veneno que vos torna maduros, fazendo-vos atingir a estatura perfeita, mas também enfraquece os ossos, enrijece as articulações e enferruja vossas entranhas, que aos poucos vão deixando de cumprir suas funções, de modo que, a cada baforada de ar, vossos tecidos vão-se desprendendo daquela essência energética que vos sustenta até que, não tendo mais no que se apegar, desvanece e volta à terra que lhe deu vida.

Não há nada mais natural que a morte física de vossos corpos imperfeitos, mas qualquer que, por descuido ou por intento, tira a própria vida ou a vida de outro, será chamado de assassino e responderá por seus feitos perante Mim.”

“Se eram tão graves as consequências da transgressão de meus pais, por que não colocaste os querubins ao redor das árvores proibidas antes que eles estendessem a mão para comer de seu fruto? Tu querias que eles morressem. Tu és um assassino maior que eu, pois eu matei a um homem e Tu mataste toda a humanidade.”

“Quisera pudesses enxergar as coisas como Eu as vejo. Se permiti que teus pais cometessem aquela transgressão é porque sabia que Eu teria o poder de restituir a vida que vos seria tirada com ainda mais vida. No dia da grande restituição, até mesmo os mais cruéis e indignos de meus filhos serão levantados de sua morte com um corpo físico perfeito e eterno, como este que possuo. Há, no entanto, uma morte sobre a qual nem mesmo a restituição de todas as coisas haverá de ter efeito algum.

A morte do corpo físico é o desprendimento da matéria física daquela essência que a sustenta de pé. Uma essência composta de ondas que vibram e ressoam como uma harmoniosa canção. Canções só morrem quando paramos de cantá-las. E nisto consiste aquela grande morte de que te falava.”

“E quando acontecerá esta grande morte e quem haverá de me acompanhar nela, pois não haverei de morrer desta grande morte sozinho?”

“Todos os que derramarem sangue inocente, e sua culpa não puder ser ressarcida pela expiação do Unigênito; e todos os que se rebelarem contra as palavras de meu julgamento morrerão desta grande morte que haverá de acontecer após a restituição de todas as coisas. 

Pois quando um homem ouve a verdade e recebe uma confirmação que reverbera nesta entidade vibratória e ressonante que lhe dá vida e ainda assim se recusa a aceitar o destino que ele mesmo comprou com seus pensamentos, palavras e ações, este homem não terá lugar nem mesmo no menor dos reinos de glória que preparei para ele. 

Não que eu não queira dar-lhe um lugar ali, mas ele não se sentirá confortável em quaisquer das Esferas que Eu criei e preparei para ele e preferirá ir para longe de Mim, pois achará que foi malogrado em seu julgamento.”

E Caim chorou ao ouvir aquelas palavras.

“Eu não teria feito tamanho mal a meu irmão se não tivesse dado ouvidos à voz do tentador.”

“Tu não terias feito tamanho mal a teu irmão se tivesses dado ouvidos à voz de teus pais. Portanto, não podes culpar nem a anjos nem a demônios pelo que tiveste coragem de fazer. Tu ouviste as opções. Tu tomaste uma decisão em teu coração. Tu fizeste o mal.”

“Se Tu tivesses instruído mais claramente ao meu pai sobre o que fazer quanto à minha primogenitura; se Tu tivesses providenciado um cordeiro para o sacrifício para que eu não fosse humilhado diante de meu irmão mais moço; se Tu não tivesses atentado para a sua oferta, mesmo sabendo as consequências que se abateriam sobre a nossa casa; se Tu não tivesses compactuado com a injustiça de meu pai, nada disso teria acontecido. Teu foi o cutelo que feriu de morte o meu irmão.”

“Caim, eu sofro por ti e sofro contigo. Quisera poder colocar palavras mais sábias na boca de meus filhos, mas se o fizesse, eu seria um ventríloquo e não um pai. Meu poder para onde o vosso começa. 

Teu pai fez o que, como pai, pensou ser justo fazer. Tu fizeste o que, sentindo-se injustiçado, pensaste ser justo fazer. Teu senso de justiça e o senso de justiça de teu pai conflitaram e ao invés de te reconciliares com ele, escolheste o caminho da rebeldia. A escolha foi tua.”

“Como poderia eu me reconciliar com alguém que é irredutível e pensa que suas decisões são a própria vontade do Altíssimo?”

“Conheces pouco a teu pai, e pouco te esforçaste por conhecê-lo melhor enquanto estiveste em sua presença. Assim como evitaste contato com ele, tu o privaste de conhecer-te melhor.”

“O que está feito, está feito. Nada posso fazer para trazer meu irmão de volta ou anular o meu crime. Se esta é a maldição que pronuncias sobre mim, que assim seja. Eu me afastarei da presença de meus irmãos e fugirei para longe.”

“Direi a Adão que qualquer que te matar terá que apresentar-se perante mim, e severa será sua punição.”

“Tuas palavras não evitaram que eu tirasse a vida de meu irmão e não evitarão que eles tirem a minha, caso me encontrem. Tu podes todas as coisas. Faze com que esta escuridão que caiu sobre mim no altar torne-se permanente para que assim eu possa me ocultar da vingança de meus irmãos.”

“Que esta seja a marca de tua proteção, e que esta marca recaia sobre teus filhos de geração em geração. E se tu e teus filhos se voltarem a Mim e aos Meus ensinamentos, e se tal comportamento perdurar por até quatro gerações, grande será vossa recompensa.

Vai agora aos teus pais e confessa-lhes o teu crime.”

Caim olhou em derredor e estava novamente sozinho. Virou-se na direção do Vale e correu para lá.

21 de maio de 2017

Capítulo 33: Bodas de Sangue

21 maio Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Ora, Abu e Ima foram os primeiros filhos que Adão e Eva trouxeram à luz deste mundo após terem sido alterados pela semente da corrupção do fruto proibido que lhes encheu as veias de sangue e lhes permitiu tornarem-se pais como Aqueles seres celestes que lhes haviam criado. 

Pelas leis de sua casa, de um dos primogênitos esperava-se que viesse nova progênie a fim de que seus outros filhos pudessem cumprir os três grandes mandamentos do Altíssimo: crescer, multiplicar-se e encher a Terra. Assim, com o desaparecimento de Abu, Ima e Hapi receberam o encargo de proverem esposas e esposos para os outros filhos e filhas de Adão. 

No entanto, por Hapi não ter tido controle sobre si mesmo e por ter deflorado suas irmãs, provou-se indigno do patriarcado e foi, portanto, expulso do arraial, impedindo assim que Ima fosse feita a segunda matriarca daquela geração.

Sendo Caim o filho mais velho depois de Abu, recaíram sobre ele os direitos à primogenitura, de modo que, já lhe era certo que Nod seria sua esposa e juntos haveriam de gerar esposas e esposos para seus irmãos.

Nod, sabendo das leis daquela casa onde fora adotada, sempre esteve mais próxima de Caim do que dos outros filhos de Adão.

Conhecendo-o de perto, não demorou a afeiçoar-se dele, afinal, Caim era belo e instruído, um homem da terra forte e formoso, dado ao trabalho e sempre pronto a servir.

Caim tinha um carinho especial por seu irmão Abel. Embora ambos tivessem seguido por caminhos diferentes quanto ao papel que exerciam em sua casa, Caim estava sempre ao lado do irmão, exceto quando Abel afastava-se do arraial para conduzir os rebanhos às terras do oriente em busca de pastos verdejantes que lhes servissem de alimento.

Aquelas eram terras perigosas, pois muitas bestas selvagens espalhavam-se à espreita por entre as árvores dos bosques ou nas fendas das rochas, prontas para atacar presas fáceis ou desavisadas que cruzassem seu caminho. De modo que Caim, embora admirasse a coragem de seu irmão, temia por sua segurança. Ainda assim, não o dissuadia de cumprir suas tarefas, porquanto, como homem da terra, Caim entendia que os rebanhos não podiam pastar nas áreas de cultivo e, por isso, alguém precisava desbravar as terras além dos limites do Vale em busca de lugares próprios ao pastoril. 

Por insistência de seu pai, às vezes Caim acompanhava seu irmão, mas não o fazia de boa vontade, nem se dava ao trabalho de aprender aquele ofício.

Adão não se agradava que Caim fosse um homem da terra, porquanto, conforme a palavra que ouvira do Altíssimo, o segundo patriarca daquela geração haveria de ser um pastor de ovelhas. Isto porque as habilidades aprendidas no pastoril seriam essenciais ao cumprimento de seus deveres como guardador de seus irmãos.  

Adão havia estabelecido leis em sua casa que garantissem que a palavra do Altíssimo se cumprisse. No entanto, até então, todos os filhos que haviam herdado as bênçãos da primogenitura pareciam dar passos diferentes daqueles que ele esperava que dessem. E, por confiar tanto nas mensagens que recebia do alto, desconfiava da retidão de seu primogênito.

Quando desceu do monte e reuniu a todos para apascentar seus corações quanto ao exílio de Hapi e falar dos novos tempos que os aguardavam, Adão chamou Caim e Abel à sua presença e disse-lhes que o Altíssimo exigia um sacrifício de suas mãos.

“Juntos escolheremos o cordeiro mais perfeito de nosso rebanho e o soltaremos pelo deserto e, por um período de quarenta dias e quarenta noites, o deixaremos à própria sorte. Na manhã do quadragésimo primeiro dia, saireis em busca dele e aquele que o encontrar há de levá-lo ao altar e oferecê-lo em sacrifício. 

E, agradando-se o Senhor de sua oferta, este será feito Sumo Sacerdote nesta casa e recairão sobre seus ombros os direitos à primogenitura e suas serão as bodas no arraial.”

“Meu pai, eu sou o primogênito e minhas são as bodas conforme decretam as leis desta casa.” Disse Caim, refutando a proposta de Adão. “Nod afeiçoou-se de mim e eu afeiçoei-me dela. Não é certo que ela seja entregue como troféu de uma disputa como se fosse um objeto qualquer, sem arbítrio ou desejos. Acaso foste até ela e perguntaste o que ela pensa de tua proposta? Acaso consultaste o Altíssimo e perguntaste o que Ele pensa de tão absurdo disparate?”

“Insultas-me na presença de teu irmão mais novo?” Adão não conseguia disfarçar seu descontentamento. “Como esperas ser um patriarca justo se não atentas às palavras de teu próprio pai?”

“Fossem justas as palavras de meu pai, eu atentaria a cada vírgula e a cada til.” Retrucou Caim. “Que justiça vês nesta disputa que propuseste? Meu irmão é um exímio pastor de ovelhas e competirá comigo que sou um homem da terra na captura de um cordeiro perdido no deserto. E como prêmio colocas em jogo a primogenitura que já me pertence e as bodas que já haveriam de ser minhas.”

“O que fizeste para merecer esta primogenitura e o ofício que te foi reservado, Caim? O que fizeste para que fosses aceito na ordem do patriarcado? Todos os dias de tua vida insisti que cuidasses do pastoril, no entanto, agradava-te mais a companhia de tua mãe e de tuas irmãs no cultivo da terra, na feitura do vinho e do pão.”

“Pelo que deverias ser grato, meu pai.”

“Não me entendas mal, meu filho. Sou-te muito grato por tudo o que tens feito pelos teus irmãos. Mas o que é que tens feito por ti e pela posição que ocupas nesta casa? Conheces a lei e tens procurado obedecê-la, mas também conheces as palavras da profecia e nada tens feito para que ela se cumpra em teus dias. 

‘Teu primogênito’, disse o Senhor, ‘será um pastor de ovelhas e como o vento arenoso do deserto sua semente se espalhará pelos confins da Terra. Pela voz de pastores como a daquele primogênito que, no deserto, aprenderá a arte do pastoril, teus filhos serão conduzidos por pastos verdejantes e habitarão em paz’.”

“Conheço a profecia mas não conheço todos os mistérios do Altíssimo.” Defendeu-se Caim. “O que sei é que não é justo isto que propuseste.”

“Caim.” Interviu Abel. “Nosso pai não está te privando de nada que já seja de fato teu. Terás quarenta dias e quarenta noites para aprenderes a arte do pastoril e eu te ajudarei em tudo que precisares. Tu serás meu pupilo por uns poucos dias e eu serei teu discípulo por todos os dias de minha vida quando fores consagrado como Sumo Sacerdote e patriarca de tua própria casa.”

Enquanto Adão dava as novas a seus filhos, Eva falava com Nod, que veio correndo ao encontro dos irmãos e abraçou Caim na presença de seu pai.

“Tu serás meu campeão e o Altíssimo atentará para a tua oferta. Tu serás o pai de meus filhos e o senhor de minha casa.”

No dia seguinte, um cabrito branco e sem defeitos foi levado por Adão e seus filhos ao deserto. 

No caminho, Adão deu a corda que haviam amarrado ao pescoço do cabrito a seu filho Caim, cujo semblante estava decaído. 

“Conduze-o, meu filho.”

“Por que fazes isto, meu pai?”

“Um dia um anjo enviado da presença do Altíssimo desceu a mim no altar e perguntou-me por que eu oferecia sacrifícios ao Senhor e eu lhe disse que não sabia exatamente o motivo, fazia aquilo apenas porque o Senhor me havia mandado.”

“Então o anjo te disse que fazias aquilo à semelhança do sacrifício do Unigênito do Pai que haveria de descer entre os homens no Meridiano dos Tempos.” Interrompeu Caim. “Disto eu sei, meu pai. Entendo a necessidade dos sacrifícios de animais e nunca te questionei quanto a isso. O que não entendo é por que estamos levando este cabrito ao deserto e por que minha primogenitura depende de encontrá-lo depois de quarenta dias, competindo contra meu irmão que é mais apto a esta tarefa do que eu. E entendo ainda menos por que tiveste que colocar Nod nesta disputa. Sabes de meus sentimentos por ela e de seus sentimentos por mim, por que ameaças a consagração de nossas bodas? Não me importaria de perder os direitos à primogenitura para meu irmão, pois ele é tão digno ao patriarcado quanto eu; mas por que tirarias de mim aquela a quem tanto amo e para quem tenho me guardado todo este tempo?”

“Meu filho, teu coração está cheio de mágoa e tuas perguntas já vem imbuídas das respostas que em tua mente tu mesmo já deste para elas; e quaisquer que sejam meus argumentos, tu os questionarás e te posicionarás contra eles. Eu compreendo tua mágoa e espero profundamente que me ouças naquilo que haverei de te instruir para que tu também venhas a compreender os meus pensamentos e o intuito de minhas ações.

Atentaste para o que disseste? Estarias disposto a trocar tua primogenitura pelos braços de tua amada, e nisto já admitiste o que tem mais valor para ti. Colocar o desejo acima do dever não seria um problema em qualquer outra circunstância, mas é nesta.

Se nossa casa não tiver um forte começo, terá um rápido fim. E se fracassarmos na tarefa de encher a Terra até que os filhos dos homens estejam prontos para receberem leis maiores que estas que nós recebemos, nossa raça será extinta e todo o esforço da Criação terá sido em vão.

Precisas entender a importância de tua posição como herdeiro das bênçãos da primogenitura; e, mais ainda, precisas estar certo do que estarias disposto a sacrificar caso qualquer um se pusesse entre ti e o cumprimento de teu dever para com Aquele que te criou, até mesmo Nod, a quem tanto amas.

Assim como todos nós, o Unigênito do Pai haverá de descer a este mundo sem lembrança alguma de tudo o que fez, nem tampouco saberá como levar a efeito o grande jugo que será colocado sobre seus ombros. E, como este cabrito, vagará pelo deserto, berrando ao Pai por explicações que não virão até que ele esteja pronto para as receber, um pouco aqui, um pouco ali, até o dia perfeito.

Como este cabrito, tu hás de chorar perdido diante do peso de tuas escolhas e vagarás a ermo até que te encontres e percebas o que fazer com o jugo que te puseram sobre o ombro.

Como este cabrito, muitos de teus filhos vagarão perdidos nos desertos de suas incertezas e precisarão de um pastor que os encontre, de um pai que os nutra, e de um sacerdote que dê propósito à sua existência. E isto não acontecerá se ao invés de te preparares para o sagrado ofício que te espera, tu te percas como ele no deserto de tuas próprias inseguranças.”

“Sempre fui um filho obediente e um irmão prestativo. Isto já não me qualifica para ser um bom pai?” Questionou Caim.

“Há um tempo para todas as coisas, meu filho. Logo chegará o dia em que sacrifícios como estes não serão exigidos dos filhos dos homens, pois eles haverão de se ocupar de fardos ainda mais pesados que os nossos. Purificados no fogo de suas aflições, encontrarão a paz. Uma paz que só será possível pelo derramamento do sangue de um bode expiatório como este.

O Unigênito do Pai pagará com seu sangue o preço de nossas imperfeições, mas de nada adiantará o seu sacrifício se, perdidos em nossa busca de nós mesmos, não ouvirmos sua voz, endireitarmos nossos caminhos, e corrermos até ele.”

“De todas estas coisas que disseste eu sou conhecedor, meu pai. Não precisas provar-me naquilo que já sou mestre. Nem deves tampouco exigir de mim aquilo que não te posso dar.” Defendeu-se Caim.

“Ouviste todas estas coisas, meu filho, mas não provaste delas.”

Caim calou-se e seguiu caminho.

Quando chegaram ao lugar desolado, Adão impôs ambas as mãos sobre a cabeça do cabrito e proferiu os ritos sacerdotais da transferência do fardo, tal qual seria feito com o Unigênito quando, no Meridiano dos Tempos, ele tomasse sobre si as transgressões de todos os filhos dos homens e se apresentasse diante das demandas da justiça para pagar aos espíritos do caos o preço de nossa existência.

O cabrito ficou lá aos berros enquanto os três se afastaram.

Caim estava muito abatido e quis ficar sozinho.

Estava arando a terra, quando um estrangeiro se aproximou.

“Soube que Adão e Eva estão preparando tuas bodas.”

“Quem és tu?”

“Sou um homem da terra,” disse Lúcifer, “mas nunca minhas mãos foram capazes de produzir frutos tão viçosos como os destes pomares. Quanto cobras por tão excelente trabalho?” 

“Meus irmãos comem livremente dos frutos desta terra.”

“Isto não é justo. Tu tens todo o trabalho, eles se fartam, e tu não lucras nada ao fim do dia?”

“Todos são gratos por tudo que faço e sua gratidão já me é suficiente.” Justificou-se Caim.

“Teu pai não me parece tão grato assim. De fato, soube que ele quer dar tua esposa àquele pastor de ovelhas. Que absurdo! Depois de tudo o que fizeste por esta casa é assim que ele te paga? Mas se ouvires meus conselhos, farei de ti um homem de posses e te cobrirás com um belo manto de ouro e prata no dia de teu casamento e meus parentes virão todos às tuas bodas.”

“Sei que há outros homens na Terra além de minha família, embora meu pai afirme o contrário. De fato, já falei com uma mulher de pele negra há algum tempo junto ao altar onde fazemos nossas oferendas. Nunca soube, no entanto, onde os poderia encontrar.”

“Meus parentes moram numa terra como esta, cheias de pomares como estes a nordeste daqui. Já convidei teu pai a vir visitar-nos, mas ele não aceitou minha oferta.

Mas se tu deres ouvidos às minhas palavras, e se vieres a mim após o teu casamento, deixarás para trás a miséria em que vives; e descansarás e terás uma vida bem melhor que a de teu pai Adão.”

Estas palavras do estrangeiro despertaram o interesse de Caim e ele recobrou o ânimo.

Lúcifer despediu-se e deixou o pomar.

Caim pôs-se a arar a terra com grande vigor. 

Eva, percebendo o deleite do filho, veio ter com ele.

“Fico feliz que tenhas recobrado o ânimo.” Disse Eva ao aproximar-se.

“Não graças a ti.” Recalcitrou Caim. “Quando meu pai te apresentou este disparate, o que lhe disseste em minha defesa? Ficaste calada e aceitaste tudo, como se sua boca fosse a própria boca do Altíssimo. Homens erram, minha mãe. E meu pai está cometendo um grave engano e tu estás apoiando este erro.”

“Se te esforçasses mais por conhecer a mente do Altíssimo, reconhecerias a sua voz, mesmo quando na boca de um homem falho e cheio de erros.” Defendeu-se Eva perturbada com as palavras que ouvia da boca de seu filho.

“Quem é o Altíssimo para que eu o conheça? Acaso já se apresentou a quaisquer de nós? Acaso já estendeu sua mão em minha defesa?”

“Meu filho, tudo o que temos feito foi pensando no teu bem. No bem de tua casa.”

“Se pensais no meu bem, por que estais para dar minha irmã em casamento a meu irmão? Estou por acaso morto?”

“Não estamos dando tua irmã em casamento a teu irmão, estamos entregando a ti a sorte de merecê-la.”

Caim aproximou-se de Eva e colocou o dedo indicador sobre os lábios da matriarca em sinal de silêncio e deixou-a sozinho no pomar.

Quando Eva disse a Adão o que havia acontecido, ele entristeceu-se pelo modo como Caim estava reagindo a tudo aqui e temeu pela alma de seu filho.

Nos quarenta dias que se seguiram, Abel procurou várias vezes o seu irmão para ajudá-lo a aprender a arte do pastoril, mas Caim não o recebeu. Preferia andar sozinho pelo campo, onde encontrava-se com o estrangeiro que pacientemente ouvia suas lamentações e fazia-lhe promessas de uma vida melhor longe do Vale.

Passados os quarenta dias, ambos saíram em busca do cabrito errante. 

Caim não fez qualquer esforço para encontrar o animal. 

Quando Abel apareceu com o cabrito ao pescoço, Caim ofereceu-se em acompanhá-lo ao altar.

Chegando ao monte, Abel viu que a lenha já estava sobre o altar e que uma estátua de milho à semelhança de um cordeiro dourado já havia sido colocada sobre a lenha.

“Não há espaço para a tua oferenda, meu irmão. O meu cordeiro tirado do fruto da terra será minha oferta ao Altíssimo.” Disse Caim, colocando-se ao pé do altar e acendendo a fogueira.

Não demorou para que o milho estourasse e flores de milho pulassem sobre o altar.

“O Altíssimo lança flores sobre o altar. Ele aceitou minha oferenda.” Disse Caim num tom de zombaria e desdém.

Abel, que havia sido empurrado para longe pelo irmão, ajuntou algumas pedras e gravetos que estavam espalhadas por ali, rasgou a garganta do cabrito e espargiu seu sangue sobre elas. Com um cutelo tirou a pele e as entranhas do animal e queimou sua carne sobre a fogueira.

Caim ria daquela cena, comendo as flores de milho e oferecendo-as ao irmão.

“Senhor, ouve as palavras de minha boca. Senhor, ouve as palavras de minha boca. Senhor, ouve as palavras de minha boca.” Disse Abel com o coração pesado por saber que se fosse de fato ouvido, aquilo machucaria profundamente a seu irmão.

Caim ficou ao pé do altar observando seu irmão, para ver se o Altíssimo aceitaria sua oferenda ou não.

Uma segunda vez clamou Abel aos céus e Caim pôs-se a rir novamente, pois resposta alguma parecia vir dos céus.

“Olha esta nuvem que se aproxima, acho que vai chover sobre a tua oferenda.” Tripudiava Caim.

A nuvem, no entanto, dispersou, e da nave desceu uma coluna de luz sobre o altar. Uma voz firme e doce ouviu-se à distância.

“Abel, bendito és tu, e agradável é tua oferta, cujo sabor suave sobe às minhas narinas.”

Na coluna de luz desceu um homem jovem e belo. Tinha apenas um manto extremamente branco cobrindo-lhe do torso aos joelhos.

O homem iluminado não disse nada. Apenas arrancou uma das costelas do cabrito e provou da oferta de Abel. Sorriu para o ofertante e subiu na mesma coluna de luz por onde havia descido.

Abel nunca havia sentido tamanho júbilo.

Caim nunca havia sentido tamanha ira. Então ele abriu sua boca em blasfêmia.

A mesma voz de antes foi ouvida novamente, “Por que decaiu o teu semblante, Caim? Se teus atos forem atos de retidão, tuas ofertas serão aceitas. Não murmuras contra mim, mas contra ti mesmo.”

Uma fumaça escura subiu do altar e envolveu Caim dos pés à cabeça, como se entrasse por seus poros e se espalhasse por sob a pele. De punhos serrados e pés firmes sobre o solo do altar, ele gritava de dor. Quando Caim desceu os degraus do altar, sua cor havia mudado.

Os dois seguiram ao acampamento e contaram aos seus pais o que havia acontecido. Adão entristeceu-se grandemente com o relato de Caim.

Ao que Abel acrescentou, “Como Caim não me deixou usar o altar, fiz um altar para mim mesmo e ofereci sobre ele o sacrifício.”

“Um amontoado de pedras”, observou Caim, “não um altar.”

“Ainda assim, foi para a oferta que estava sobre o amontoado de pedras que o Altíssimo sorriu.” Disse Adão ao tomar Abel em seus braços e beijar-lhe a face pois o Altíssimo havia aceitado sua oferta.

Neste momento, Nod entrou na habitação de seu pai e todos se entreolharam com um olhar solene.

Caim não quis ficar para ouvir as deliberações de seu pai e correu para o campo.

Ali encontrou-se com o estrangeiro que colocou ainda mais lenha na fogueira de sua ira.

“Decerto que teus pais amam mais a teu irmão do que a ti. Do contrário, não teriam sugerido uma competição tão injusta. E este tal Altíssimo, que tudo sabe, parece não se importar tanto com a injustiça de teus pais. Ou Ele sabe bem menos do que imaginais que Ele saiba, ou é tão injusto quanto teus pais.”

“Tu me disseste para fazer a oferta de milho. Se eu tivesse dado ouvidos ao meu irmão e aprendido com ele a arte do pastoril, não teria perdido a minha amada.”

“Achas mesmo que teu irmão iria ensinar-te em tão pouco tempo tudo o que sabe a ponto de tornar-te um pastor melhor do que ele próprio. Achas mesmo que tinhas alguma chance de ganhar esta peleja?”

“Estás certo. Minha primogenitura foi roubada de mim e, junto com ela, roubaram-me minha amada.”

“Só há injustiça quando os injustiçados aceitam de cabeça baixa a sentença.”

“O que eu posso fazer contra os decretos de meu pai? Ele é o senhor destas terras.”

“Volta para a tua casa e felicita ao teu irmão por sua conquista. Beija a teu pai e a tua mãe na face e diz-lhes que estás arrependido de tua conduta. Diz a Nod, em segredo, que ela será tua e faz com ela uma combinação secreta. Se fizeres tudo com cuidado, corrigirás toda esta injustiça e tirarás o prêmio indevido das mãos de teu irmão, ao mesmo tempo que privarás teus pais do êxito que planejaram contra ti.”

Caim fez conforme Lúcifer lhe instruiu e não deixou que ninguém soubesse da ira que nutria em seu coração contra seus pais e seu irmão.

Passados alguns dias, Caim foi ter com Abel.

“Não te afastes de mim, meu irmão. Sei que não te sentes confortável em minha presença e isto corta-me o coração. Amanhã serão tuas bodas e quero que este dia seja um dia glorioso para ti.”

“Nunca quis que nada disso acontecesse, Caim. Nunca desejei para mim a tua primogenitura, nem tampouco tomar-te as bodas.”

“Não te desculpes por tua vitória. Vitórias devem ser celebradas e não lastimadas.”

“Estás certo.”

“Vim convidar-te para acompanhar-me em um passeio. Tu sempre vais ao campo para trabalhar e pouco aproveitas da beleza e recursos destas terras. Há tanto o que experimentar, tantas coisas nas quais podemos nos perder em admiração silenciosa, tantas outras coisas para fazer além de ficar rodeado do odor dos dejetos desses rebanhos malcheirosos dos quais tu cuidas com tanto esmero. Afinal, tornando-te um Sumo Sacerdote e Patriarca, terás ainda menos tempo para aproveitar de todas estas coisas após tuas bodas.”

Abel sorriu.

“Hoje, meu irmão, quero que venhas comigo para celebrares a vida, pois tu és um homem reto e merecedor de todas as alegrias que os campos e os rebanhos possam te dar.”

Abel seguiu seu irmão ao campo. Juntos tomaram vinho, nadaram nas águas do rio, correram pelas campinas.

À noite, fizeram uma fogueira e contaram histórias sobre seu irmão Abu e suas proezas.

Abel confessou que tinha a impressão que seu irmão mentia para eles, pois todos esses anos em que o substituiu no pastoril, não encontrara nenhuma besta como aquelas que ele descrevia, e, na maior parte do tempo, o trabalho do pastoril era de fato bem tedioso.

A este ponto da conversa, Caim levantou-se assustado e pegou seu cajado, olhando em derredor.

“Você ouviu isto?”

Abel não havia ouvido nada.

“O rugido veio daquela direção.”

“Não te preocupes. Estas terras são seguras. Podes conhecer das delícias destes campos melhor do que eu, mas eu sei bem onde há perigo e onde não há.”

Sem que seu irmão visse, Caim atirou uma pedra na direção em que estava apontando.

Abel virou-se para olhar de onde vinha o som e Caim feriu-lhe a cabeça com o cajado.

Quando Abel caiu por terra, vendo que seu irmão intentava em lhe matar, clamou por socorro e clemência.

Caim segurou-lhe a boca com força para que ninguém os ouvisse e tirando da aljava um cutelo, rasgou a garganta de seu irmão e aspergiu seu sangue sobre a fogueira.

Aos prantos, amarrou o corpo do irmão de pé, de braços estendidos, nos galhos de uma árvore com a intenção de tirar suas entranhas e finalizar o sacrifício conforme mandava o costume das oferendas de animais, mas vendo seu irmão a quem tanto amara coberto de sangue diante de si, Caim caiu por terra aos prantos.

“O que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz?”

Um tremor tomou conta de seu corpo e não sabia se era ele ou se era a própria terra que tremia diante daquele crime que ele cometera, de modo que, com as próprias mãos, pôs-se a cavar.

Um medo tomava seu coração de uma forma que nunca antes sentira.

Ele então lançou o corpo de seu irmão naquele buraco que ele cavou como se fosse uma semente lançada na terra recém arada.

Um raio de luz clareou os céus e um estrondo ouviu-se em seguida, e os céus choraram a morte de Abel. 

A fogueira apagou. Apesar da chuva, a noite ainda estava clara. O barro molhado escorreu, revelando o corpo. Parecia que a terra não queria aceitar aquela semente prematura que Caim queria plantar ali.

Sem saber o que fazer, Caim fugiu.